A solidão

O silêncio de um vazio interior, que preenche o tempo, o espaço e corações. Sentimento profundo que assola a humanidade. Há quem se perca e há quem se encontre dentro da sua solidão. Há vazios sem solidão, mas não acredito que há solidão sem vazios. E então, o que fazer com ela? Atravessá-la? Sim, como uma travessia, trilhar um caminho dentro dela para desvendar suas causas existenciais?  Mergulhar profundo e transcender o vazio trazido pela solidão? Este é um dos caminhos.

Em tempos de pandemia, a solidão transformou-se em algo até natural e comum de ser sentido, identificado e falado, devido ao isolamento social imposto à sociedade neste momento. Mas não é de hoje que a solidão assola a sociedade moderna. Seria ela a grande amiga da tristeza e do desânimo? Ou, apenas um instrumento para enxergamos mais de nós mesmos e do mundo ao nosso redor?

O fato é que somos seres naturalmente sociais e nem todos lidam bem com a solidão. Sentir-se completamente só, mesmo acompanhado, não é fácil. Mas, ela pode impulsionar o ser humano a mudanças de comportamento, de ambiente e de formas de viver. Do nada é possível criar, inovar, e preencher os vazios em si, consigo mesmo. Porém, é trabalhoso, porque inclui uma jornada de auto-observação e conhecimento de si, o tão falado autoconhecimento. Olha ele aí de novo mostrando soluções. Uma jornada árdua e muitas vezes longa. Qual seria a origem da solidão?

Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman: “Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”. Bauman trouxe o conceito de relações líquidas na sociedade pós moderna, a qual, na visão dele, as relações sociais e econômicas são frágeis e maleáveis como líquidos. Esta nossa sociedade atual e moderna, a qual todos estão conectados virtualmente, mas desconectados pessoalmente, no olho no olho. E isso traz a solidão como uma realidade desses novos tempos. Com a mudança de valores, a concentração da sociedade como um todo na valorização do ter e a valorização extrema do consumo, muitas pessoas procuram no consumo, consolo para a sua solidão. E talvez nem a enxergue dentro de si, apenas sinta suas consequências ou efeitos em seu íntimo. As pessoas estão muito ocupadas para olharem para si mesmo e identificar a origem de seus sentimentos.

A solidão em maior ou menor grau traz a insegurança, pois ela de certa forma abala as bases estruturais das pessoas e até a forma de enxergar o mundo ao redor, pois muito do que aprendemos e somos vem da construção das relações sociais, seja no trabalho, na família ou no círculo de amizades.  Da identificação e sensação de pertencimento a algo. E a meu ver, até as representações e referências que tínhamos são mexidas e reestruturadas ou não, durante um período longo de sensação de profunda solidão. Ela traz reflexões de quais bases nos sustentam. Mesmo no vazio da solidão, o que te sustenta? Para conhecer essas bases interiores cada um tem que fazer a sua investigação interior e identificar suas fragilidades e fortalezas. Amiga ou inimiga, o fato é que a solidão nos convida a trabalhar nossas bases interiores. Desvendar a origem do sentimento de solidão é desvendar a si mesmo e repensar seu modo de vida e valores.

Por isso, a solidão é aquela visitante que incomoda. Talvez ela sempre estivesse ali e muitos não perceberam antes porque não paravam pra refletir suas relações, sentimentos, modo de vida e escolhas, muito menos para enxergar seus próprios vazios.  Seguia a vida no modo automático e de repente são obrigadas, às vezes por causas externas, como uma pandemia, por exemplo, a parar o modus operandi habitual. Em alguns casos já se relaciona o sentimento profundo de solidão a possível causa de doenças como depressão, ansiedades e alterações na saúde e bem-estar das pessoas. Nestes casos, é importante que a pessoa peça auxílio profissional para atravessar a mesma e descobrir suas causas. Mas, escolher ser solitário nem sempre é sinônimo de solidão. A solidão traz com ela a sensação de desamparo, incompreensão e de não ter com quem contar verdadeiramente.

Acredito que só um amor profundo pode transcender a solidão e consequentemente também transformar as relações na sociedade. Aquele amor construto. Que edifica a si, o mundo e o coração de quem ama, e também de quem recebe este amor, preenchendo o ser humano e o livrando deste sentimento. Podemos estar até sós, mas se amarmos verdadeiramente, não estaremos realmente sozinhos. Muito menos, vazios. O verdadeiro amor preenche o coração do solitário de modo que mesmo sozinho e isolado não se sinta tão só, pois está acompanhado por um sentimento superior até a si mesmo, que transcende. Mas, será que as pessoas estão preparadas para trilhar este caminho e conhecer esta porta? Não. Por isso, há solidão assolando as pessoas, as visitando sem data para ir embora e as impulsionando a agir conforme a carência de seus vazios. Ela faz parte da vida e também do modo que as pessoas escolheram viver e se relacionar nesta sociedade moderna. A solidão é como uma noite sem luar e o amor verdadeiro é como o Sol amanhecendo um novo ser, este, não mais tão solitário.

“A pior solidão é a da pessoa que não ama”

Vinicius de Moraes
Fotografia registrada por mim, em 2015, no Poço do Pito, Núcleo Santa Virgínia – Parque Estadual da Serra do Mar, SP.

2 comentários em “A solidão

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